Stephen Kanitz

 

Antigamente revistas de negócios sempre traziam na capa um grande empresário. Executivos como Henrique Merelles, Alain Belda  e Carlos Ghosn ficavam em segundo plano.

Por isso, a maioria dos brasileiros acredita até hoje que empresários mandam no país, que são os “ donos do poder”, e que um, bando de empresários internacionais, reunidos neste momentos em Davos, está decidindo os rumos da humanidade.

  Há muito tempo as campanhas no reto do mundo não são mais dirigidas por empresários , e sim por administradores profissionais, sem laços de família nem mesmo de nacionalidade com aqueles.

  Administradores profissionais são eleitos democraticamente por milhares de pequenos acionistas. Por sua vez, empresários são eleitos por cinco ou seis membros de uma única família.  Administradores  profissionais fazem o jogo político de conciliar interesses conflitantes de trabalhadores e acionistas.  Os empresários administram quase que exclusivamente os interesses da família.

   Da mesma forma que a separação da Igreja e do Estado foi um marco da evolução política da humanidade, a separação do empresário capitalista da gestão da empresa foi um importante avanço na evolução das companhias democráticas e pluralistas.

   Aceito a crítica de que muitos gestores e executivos profissionais só defendem os acionistas controladores, mas aí o problema é do modelo econômico vigente, de negar aos acionistas majoritários que detêm até 85% do capital o direito de voto.

   Nossos empresários e o Estado chegam a controlar empresas privadas ou estatais tendo somente 17% das ações, ao arrepio do alienável direito ao voto que está na Constituição. 

Nas empresas democráticas, em que todos têm o direito de voto, agradar a 5 milhões de acionistas é quase impossível, a não ser pela eficiência.

  O problema da Enron e do capitalismo americano atual foi a criação dos bônus anuais e stock options para executivos, que passaram a agir cada vez mais como capitalistas de antigamente e cada vez menos como administradores profissionais que deveriam ser. Mas isso tem fácil solução. É só cortar esses privilégios.

    Pela primeira  vez um jornal de negócios brasileiro cria um prêmio não para empresários, mas para “reconhecer e prestigiar profissionais que inspiram seus times com capacidade de liderança, ousadia e visão estratégica” . Um prêmio para administradores, e não para capitalistas.  O jornal Valor Econômico virou no ano passado uma importante página no jornalismo  econômico .  Uma quebra de paradigma não trivial.  Abílio Diniz e Eugênio Staub, dois dos contemplados são chamados de “gestores de empresa” , e não mais de empresários, como de costume.

  Dos 22 vencedores do ano passado, doze são formados em administração de empresas, quatro na FGV d dois em Harvard.  Quebrou-se um paradigma cultural e do jornalismo brasileiro, a veneração do “ empresário” como agente de mudanças , e introduziu-se a equipe de administradores profissionais no centro da questão.

    A era do empresário terminou nos Estados Unidos em 1930, com os Rockefeller , Ford , Carnegie, que lentamente foram substituídos por administradores profissionais sem nenhum parentesco com a família.  O século XX viu a substituição do acionista controlador pelo administrador  conciliador , o que foi possibilitado pela pulverização do capital entre mulheres de pessoas.

  Com nada menos que setenta anos de atraso, estamos finalmente começando a trilhar o mesmo caminho , o caminho da democratização dos meios de produção.

 

 

“ Com setenta anos de atraso, estamos finalmente começando a trilhar o caminho da democratização dos meios de produção”