por Denise Ramiro e Murilo Ramos.

 

No começo da década de 90, um empregado da Industria  automotiva montava oito carros por ano.  Dez anos depois, um único trabalhador passou a produzir dezenove   veículos.  Esse é o exemplo clássico de produtividade  .O termo que é tão debatido entre economistas, parece complexo.  Mas, na verdade, pode ser traduzido de uma forma muito simples: fazer mais com menos ou, no mínimo, com os mesmos recursos . Embora a palavra produtividade não fosse tão popular no início da industrialização, sempre houve a busca incessante por ela.

  Nos países desenvolvidos, a perseguição da melhoria da produtividade vem de longe.

No Brasil, tomou fôlego há cerca de dez anos.  O resultado desse esforço está começando a ficar evidente.  Um recém-lançado estudo da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (FIESP), realizado pela Fundação Getúlio Vargas, dá conta de que a produtividade cresceu 25% nos anos 90 nos diversos setores da economia brasileira.  Na indústria, a média anual de

crescimento foi de 8,4%, mais que o dobro do obtido pelos Estados Unidos em seus anos

dourados da era Clinton e da decolagem da internet.

    Para o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, o aumento da produtividade é a única alternativa para o crescimento econômico daqui para frente.  O país não pode mais contar com polpudos investimentos estrangeiros, já que as privatizações começam a ter um limite físico em vista.  A outra fonte de renda pública, a arrecadação de impostos, não tem sido direcionada para a produção .  Diante desse quadro, a responsabilidade  promover o aquecimento fica nas mãos da iniciativa privada. Os números comprovam que o aumento da produtividade está diretamente relacionado com o desempenho econômico sadio do país. Fazer mais com menos significa também renunciar a uma taxa de empregos no mesmo rítmo das dos anos 70, por exemplo.  Por mais contraditório  que possa parecer, a produtividade corta poucos postos de trabalho de modo a preservar a maioria, pois sem ela as empresas cedo ou  tarde quebram.

 “ É uma heresia afirmar que a produtividade á a causa do desemprego.  A produtividade gera desenvolvimento e, a longo prazo, emprego”, diz o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega.

  Produtividade também é sinônimo de educação.  Os Estados Unidos registraram ganhos de 5% no último trimestre de 2001,o que surpreendeu os analistas mais otimistas , uma vez que a nação ainda limpava os destroços dos atentados terroristas de 11 de Setembro . Para o sociólogo José Pastore, especialista em questões trabalhistas, essa capacidade dos EUA de reagir rapidamente ás adversidades tem como berço o nível educacional de sua população.

  A Coréia do Sul é outro exemplo.  Líder do ranking entre os países com maior taxa de crescimento anual em produtividade, esse Tigre Asiático sempre investiu muito em educação .  “ A Coréia está colhendo o que plantou” diz Renato Fonseca, coordenador da Unidade de Economia e Estatística da Confederação Nacional da Industria (CNI) .

   O Brasil tem ainda muito que fazer nesse sentido. Mas já percebeu o caminho das pedras.  Mesmo tendo crescido em ritmo frenético na década de 90, a produtividade da maioria das empresas brasileiras ainda perde feio para as similares americanas e européias .  Mas pelo menos se caminha ao rumo certo.  Parte do bom desempenho verde-amarelo pode ser explicada pela crescente abertura econômica.  Quando as portas do país estavam fechadas aos produtos estrangeiros, não havia interesse em produzir mais e melhor.  Ao contrário, o que se verificava era uma clausura víciante.  Bastou abrir as fronteiras para que a história ganhasse outro contorno.  Com a competição acirrada dos artigos importados e com a necessidade de exportar, as empresas brasileiras tiveram de se adequar a uma nova realidade.  Passaram a investir em máquinas com tecnologia de ponta e na capacitação dos profissionais.

  Algumas empresas se beneficiaram tanto dessa transformação que hoje conseguem competir, de igual para igual, no ambiente externo.  A Gerdau Jophannnpeter, a produtividade de sua empresa mais que dobrou nos últimos dez anos.  O índice, muito acima da media  nacional, está relacionado ao investimento pesado feito no período.  Cada funcionário da companhia  recebe aproximadamente setenta horas anuais de treinamento.  A empresa gaúcha com dez unidades em solo brasileiro e conseguiu estabelecer-se vantajosamente em economias competitivas, como a americana e a canadense,  A Perdigão, uma das maiores fabricantes de alimentos do país, segue a mesma trilha.  A companhia, que tem incrementado suas exportações de carne de aves e de suínos para países pouco explorados, como a Rússia, obteve um ganho de aproximadamente 37% em somente seis anos.

     Além de grupos de origem familiar, ex-estatais também correram em busca de mais competitividade.  A Embraer, símbolo de empresa globalizada, avançou nesse campo.  Em 1994, antes de ser privatizada, sua produtividade por funcionário era de 40.000 dólares por ano.  Hoje ultrapassa os 3000.000 dólares.  O tempo de fabricação de uma aeronave, ao período, caiu de quinze meses para menos de cinco. O outro caso de sucesso é o da Companhia Siderúgica Nacional.  Em 1992, antes de a empresa passar para a iniciativa privada, um funcionário produzia 295 toneladas de aço anualmente.  O patamar agora supera as 700 toneladas.  Por mais que os resultados sejam animadores, há ainda muito a ser feito. “ Sempre é possível melhorar”, diz Johannpeter.  A busca pela produtividade é como a obsessão de um atleta pelo recorde.  Não tem limite.

 

Um segundo lugar que vale ouro.

Na década de 90, o Brasil só perdeu para a Coréia entre os países cuja produtividade da indústria  mais cresceu.